Creio que a roda da costura, ao tecer somente o vermelho, pode nos cegar, na verdade. O tédio, o desinteresse, a previsão fácil e tateável do futuro é matadora. Espero que consigam, dentre os panos rubros, saírem outros pretos, escuros, pegando fogo. Que os incendiados vão embora rapidamente, mas que marquem presença de quando apareceram. Da época em que foram presentes.
Minha bisavó morreu. A bisa Roza, a mãe da minha avó e avó do meu pai. Talvez isso seja um tecido escuro dentre tantos vermelhos e azuis que estavam sendo produzidos. E acho que é isso. Meu pai se diz aliviado, e por breves trocas de mensagens parece verídico. Escreveu algo bonito para o facebook que minha mãe mostrou com uma admiração que nunca tinha demonstrado antes pelo homem. A morte nos une.
Apesar de se pagar de superado, como sempre faz, e faz bem para o grande público, creio que a maconha, os videogames de tiro e os fones de ouvido nunca foram tão usados. Talvez quando eu nasci, talvez quando minha avó envelheceu, talvez quando se separou da Mari tenha se parecido, na verdade. São seus afogamentos necessários, seus conjuntos de tecido pegando fogo.
Ele não me disse nada, a priori. Fiquei sabendo pela minha avó materna e sua filha. Era aula de inglês, aquela dispersão de sempre, aquela euforia de sempre. Minha cara fechou instantaneamente. Falei em uma altura que meus dois amigos mais próximos conseguiriam ouvir a notícia “quando minha bisa morreu, eu chorei muito” “eita amiga”. São as palavras de conforto que não trazem conforto nenhum apesar de seu planeado objetivo. Recebi um abraço, afagos na cabeça e respostas vazias para minhas perguntas atônitas.
Fiquei de ligar para meu pai, conversar com ele, conforta-lo com minhas palavras. Mas não o fiz. Assim como não fiz com Manu, após a perda do pai, apesar da proximidade, apesar do pesar, apesar do reconhecimento da importância, não o fiz. Esperei que me contasse, que ele tocasse no assunto, que ele escolhesse quando e como. O resto do dia foi comum. Bom, na verdade. Fiquei mais preocupada com os afetados do que afetada objetificamente. Quando percebi que eles estavam levando a vida após a morte, achei que deveria também.
A morte nos molda. Molda mais que a vida. Vivemos para morrer. Morremos, porque já estivemos vivos em algum momento. Fico feliz com o alívio. Que já chegou o que esperavam, que já se eternizaram.
“Na certeza da morte,
se faz mais vivo o morto
Do que na certeza da vida
se faz o vivo.”
Como você mesmo, lindamente, o disse. Lindo, Tomás. Lindo.
Enfim. Me conte mais sobre você. O que acontece? O que aconteceu? Me conte futilidades, me conte qual portugues você conseguirá entrar dentro da mala. Sinto que estou falando muito sobre mim.
Abraços (ainda) vivos,
Lis”
