Não escrevo há tempos. A vida, mesmo que essencialmente agitada, tem sido regada por lágrimas que apenas compõem o oceano. E assim, com o salgado da água e o agito dos mares, me ponho boiando com proeza, evocando os momentos de mudanças inaiceitas, mas acontecidas.
Tenho dificuldade em me lembrar se qualquer coisa fora registrada no aniversário de dezoito anos – escrevo em extenso porque as letras escancaram o que os números tendem a não mostrar com clareza. Quero que veja como se soletra, como se diz para o segurança da festa que confirma qualquer coisa que lhe foi mandada, De-zoi-to, sim -, penso que não mesmo pela cronologia da coisa. Devo ter ganhado o presente, este que agora me serve de quadro, depois do dia dez. Dia onze talvez, talvez depois. Não sejamos tão preciosistas. O fato é a idade, é o aniversário , é o novo adultizar.
Acima dessa nova tentativa de expressão que lhes ocupa, duas linhas escritas: “Escrevo, porque, em dizeres não me suporto. – a vírgula poética, questionada pela preciosista professora de português, a frase crua, quase pálida, quase miniconto.
Escrevo, e quando o faço, porque em dizeres, profundos, arriscados, pensativos, porque em dizeres, em eus, não me suporto. Fisicamente. O choro, expelido por qualquer parte do olho que nao me interessa, desce pelas bochechas, passa pelo canto da boca, salga a língua, cai na cama molhando o cobertor, depois o lençol, depois o colchão e por aí vai, até o centro do mundo, levando o descontentamento imparável ao interno cabal.
Penso em alongar as frases, multiplicar as orações, explicar isso e aquilo que faltam nos meus textos. Penso mais, no lado ruim do caderno, no choro já engolido – ou exprimido em breves palavras – e desisto, por ora, de explicações. O poderoso da leitura é o reconhecimento, não pelas especificidades do narrado, mas pelo sentir das letras.
