CAPÍTULO 1
Poucas coisas são capazes de me tomar a paciência, o calor é uma delas.
Os dias ajustam-se cada vez mais ardentes, a cada brecha um pouco de mim se esvai. Derrete.
Minha cabeça lateja toda partícula de luz nova. Nas tardes, parece que o sol desce um pouco mais, para me encurralar numa irrealidade assustadoramente manipuladora. Com um pouco de sutileza, qualquer predador chega perto o bastante, exposto e, sob o gume de tais armadilhas, uma espécie de labirintite se inicia em mim, mínimos movimentos com a cabeça fazem tudo girar e a tontura é ridiculamente forte.
Num calor tão absurdo se torna impossível ler, ao menos em minhas condições. Essa restrição é outra das coisas que me tiram a paciência, “nenhum homem gosta de ser privado de seus prazeres”, é claro, porém, tirar-me a leitura é como tirar-me água limpa para beber, é como olhar diretamente para os raios ultravioletas.
Nada mais me alivia, se tivesse bons dentes, me arriscaria a mastigar gelo e, se tivesse coragem, sairia para um mergulho.
Me encaro rigorosamente no espelho enquanto escovo meus dentes, minhas gengivas escuras do tabaco, soltam mínimas quantidades de sangue conforme faço força para clareá-las, meus lábios rasgados pelos meus próprios dentes, ardem com o bicarbonato de sódio que logo mais desce pela pia.
Por via de regra, eu era mais gentil, suspeito que seja culpa da pressa, ou talvez do relógio que às vezes, pela minha visão periférica, vejo correndo, furtivo. Do absoluto nada, me assalta na intenção de me fazer correr junto dele. No sentido de expungir a brutalidade, se precisa de tempo. A habilidade de praticar ações de jeito sutil consigo mesmo, corre contra os ponteiros e talvez, se essa graciosidade algum dia chegar a reinar, o homem possa ser de fato contente.
Nos últimos meses, até essa água que lava minha boca tem um amargor sinistro que gruda sem piedade. O réu dessa vez é o tabaco que andei fumando demais, rápido demais.
Minha mediocridade transforma, não importa o que for em alguma chatice cotidiana, abraça qualquer conceito e o murcha vagarosamente, não mais que o suficiente para virar frutas secas. Selvageria o que costumava cometer, tragaria tudo o que pudesse e porventura um pouquinho mais.
Só fraquejou quando se tratou de religião, em tempo algum tive quaisquer conexão espiritual e paranormal, isso resulta não na falta de confiança nas crenças, mas uma certeza imbatível de que Deus, como toda história inventada, tem mudado de acordo as grandes sociedades. E mesmo que, moralmente se torne absurdo e “diabólico”, seus adeptos continuarão concordando sem questionar. Não questionam pois já não dispõem do juízo de ruminar por si próprios, Nietzsche escreveu em “O Anticristo”;
“A felicidade, o ócio, leva a ter pensamentos – todos os pensamentos são pensamentos ruins…O homem não deve pensar. E o sacerdote em si inventa a carência, a morte, o perigo de morte na gravidez, toda espécie de miséria, velhice, labuta, sobretudo a doença… A carência não permite ao homem pensar” Eu já prefiro chamar tais sacerdotes pelo seu nome atual; a alta sociedade.
Minha mente se tornou resiliente, de certa forma, à religião. Por mais que não tenha tantas memórias infantis, creio que essa resistência tenha crescido cravejada em meus ossos ao passar dos anos.
A despeito de não ser tão velho, é o que aparenta às primeiras impressões, cicatrizes e manchas envelhecem todo indivíduo que não tenha dinheiro suficiente para um bom tratamento. Me tornei um peão violento e revoltado internamente, aprendi a me expressar para dentro e isso por conta do isolamento. Por fora, mesmo tendo aparência agressiva, tenho constante dificuldade de impor respeito próprio, sendo empurrado, ofendido ou atordoado, a agressividade e a reflexão aparecem dentro de mim e o lado de fora, permanece completamente pacífico.
Uma rebelião completa corrente apenas no interior da alma, impossibilitada pela sociedade de se demonstrar ativa.
Minha mente por si só, com jogadas de raciocínio e certo entendimento, violenta agressivamente cada novo conceito. Revela seus mais profundos interiores e verdades e mentiras.
O pessoal com quem raramente me encontro, diz que estou deixando-me sucumbir à loucura ao permitir tais “atos grotescos”. Ouvem rasos discursos sobre o funcionamento de alguns poucos pensamentos meus e assumem a posição crítica, eu incentivo e aproveito.
Diferentes pontos de vista fazem parte na hora de se julgar as ações, conscientes ou não, e isso é fato. A sociedade se acostumou a tal detalhe a tempos, e em conjunto, eu aprendi a levar críticas de uma boa maneira.
Tão imerso em mim mesmo, não notei que andara o caminho até a chafarica que sempre almoço, mas já eram 5 da tarde e eu queria trocar papo. Ascendi um cigarro do lado de fora e me escorei nos cartazes de promoção grafitados das paredes, fazendo o que comicamente chamava de “observação social”.
Acabei apagando o cigarro pela metade e entrando na lanchonete, a garganta ainda sem apagar suas flamejas. “Preciso de algo para beber” assumi.
Os atendentes todos derretidos pelos cantos ainda não haviam notado minha presença, mas no tempo que me aproximei, se forçaram a mostrar um sorriso amigável, apesar do cansaço. É uma habilidade de poucos, que me encanta e também muito me falta.
-Boa Tarde…- Disse mas a voz não me sai da boca. -Boa Tarde! me vê uma dose de Campari com…- Preso em duas opções, escolhi a mais comum. -Gelo e laranja.
O senhor com quem falei assentiu com os lábios apertados, rachados. Dentro de 5 minutos eu já tinha a bebida em minhas mãos e o senhor, o dinheiro em seu bolso.
O lugar transbordava movimento, a cada nova olhada que dei em volta, descobri um rosto novo, contudo, não me sentei com ninguém e acabei escolhendo uma mesa bem no meio do local, todas as conversas a minha volta se mesclando em uma massa randômica de palavras, criando histórias completamente inovadoras.
Aproveitei e degustei o máximo que pude desses contos, soltei um tímido sorriso ao notar as contradições. É uma atividade vulgarmente divertida, me distrai ordinariamente do escaldar.
Durou tão pouco, fui retirado do barato de supetão, quando um moço novo e sorridente tropeçou nos pés do meu assento. O olhei confuso, ainda assim parecendo indignado.
“Sinto muitíssimo senhor” disse o moço, gesticulando.
Até tentei respondê-lo, mas antes que pudesse decidir-me com as palavras certas, ele já havia virado as costas. Tremenda lentidão! É cruel a culpa que agora me sobra por ter passado esse lapso.
Findei toda minha bebida em dois extensos goles e me concentrei de olhos fechados, as células de minha língua em ardor combinaram com meus lábios já desérticos, abri um pouco a boca para libertar os gases e vapores da garganta. O sangue pulsava, queimando em fervura por alguns instantes e então, congelado completamente. Os raios do choque térmico me fazem vacilar. Abro meus olhos.
Um garçom magrelo com profundas olheiras cansadas me olha preocupado de canto, assim me levando a assumir que empalideci, ou que tal homem reconhece em mim a lassidão. Quem sabe os dois. Dei um sorriso modesto na tentativa de desviar tal cautela.
Mesmo em meio a tanta balbúrdia, música e uma correria clara do horário de pico, o silêncio aperta brutalmente em minha cabeça. Aflora uma angústia que faz tremer, desatina o corpo inteiro. Desordenado, me submeti a mover as pernas, jogando o peso de um lado para o outro.
Encostei-me novamente numa parede do lado de fora e acendi um cigarro, a ponta deixando cair restos de tabaco já queimados antes. No fundo de minha mente pude ouvir e, realmente ouvir um piano tocando jazz junto de um violoncelo e batuque brasileiro, isso finalmente me fez apropriar-me da pacatez .
Olhando para a porta do bar, reparei o jovem de antes entrando e saíndo, atentando as redondezas tal qual esperasse alguém. Sem nenhuma intenção, deixei um riso de júbilo libertar-se ao imaginá-lo com uma mulher, tem de ser impassível para lidar com tal tipo de rapaz.
A lua minguante agora seduzia no céu, tão fina e cortante quanto estilhaço fazia-se a protagonista da noite, com as nuvens a seu favor cobrindo qualquer outro brilho. Por pouco perdi a noção do tempo e permiti que a brisa me levasse até lá, menti que a hora da bebida fazer efeito já havia chegado e, por alguns segundos até que pude aproveitar. O estômago remexeu e rebolou no lugar, clamando por sustento com suas mais brutas raízes, tentei ignorá-lo mas eventualmente tive que voltar atrás e, consequentemente, para dentro do bar.
Chegando na porta, analisei o habitual interior com um pouco mais de atenção que o normal, cada rosto novo e memorizei os que já havia esquecido. O rapaz saia corriqueiro do banheiro, alisando as roupas e arrumando o cabelo.
No guichê, acenei para o garçom e pedi-lhe uma porção pequena de fritas, colocando gentilmente o dinheiro suficiente sobre a tábua e o arrastando com os dedos na direção do cumim. Este era bastante característico, tinha no rosto um olhar despreocupado e jovial, vivo, mas algumas cicatrizes no rosto e as mãos grossas de calos. Olhava com certo prestígio para cada ação de seu superior, parecendo realmente dedicado ao tal aprendizado. Logo apareceu em minha visão periférica aquele moço que observei antes, agora já completamente interessado na sua história, cuidei-o discretamente. Acabava de sair do banheiro, bateu sem dó nas roupas afastando o pó da rua, aprontou o cabelo e respirou fundo antes de atravessar rapidamente todo o salão e ir para a porta novamente.
Meu lanche pronto me tirou de perto do balcão e me fez escolher um lugar para sentar. Perto da porta. Entre olhadas para lá e pra cá notava os movimentos do jovem, pouco tempo depois sua acompanhante apareceu saindo de um táxi e correndo para um abraço apertado, falso.
Os cabelos pretos escorridos tomaram conta dos ombros do rapaz como se estivessem prestes a degolá-lo, ao se soltarem, os olhos da mulher correram analíticos sobre cada detalhe, encontrou minha vista e um frio percorreu minha espinha, o fundo cruel de seus olhos escuros me obrigaram a desviar a atenção.
Foquei em minha mesa por alguns instantes, tentando evitar contato com o mundo fora da cesta de molhos, quanto voltei a olhar em volta não os encontrei então escolhi o “próximo alvo”.
Examinei o cumim e como ele olhava para baixo escutando um provável sermão do superior por ter esquecido um guardanapo na mesa. Não pude ouvir nada do que disseram, mas era clara a tensão entre os dois.
Assim que o chefe virou de costas, o menino revirou os olhos e praguejou baixinho. Sua zanga me cativou e um sorriso escapou entre mastigadas.
O batuque chegava ao fim, até que só restasse a televisão gritando notícias calamitosas, deturpando os tímpanos de todos, que falavam alto na tentativa de se escutarem. Ninguém queria realmente ouvir toda aquela desgraça, mas se algum funcionário (já exausto de tanto barulho) tentasse desligar, a briga seria feia.
Fiquei tão atordoado que decidi ir embora, sem nem terminar de mastigar, saí a passos rápidos do lugar. A comida pesou a descer pela garganta e eu corri ao ver um ônibus virando a esquina, demorei com tão pouco fôlego.
“Vambora rapaz, tenho a noite toda não, meu fi” foi a primeira coisa que escutei quando as portas bufantes abriram em minha frente, soprando vapor quente em meu rosto. Sussurrei uma “desculpa” e um “obrigado” ao motorista que era comicamente mais novo que eu, mas me chamava de “fi”.
O interior do veículo estava bem vazio, escolhi um dos poucos assentos com sombra e não movi um músculo senão para apertar a campainha de minha parada 42 exatos minutos depois. Não olhei para ninguém, nem para a idosa que sentou do meu lado, segurando a bíblia sobre os joelhos cobertos. Não pensei em nada e tenho quase certeza de que pisquei quatro ou cinco vezes no trajeto inteiro, encarando o vazio da minha própria mente.
Quando desci passei a mão vigorosamente no rosto e pescoço, tentando afastar o suor e acordar-me novamente para o céu escaldante. O tempo andava impossivelmente anacrônico, bufei em descontentamento vendo que ainda não passavam das 09:30.
Não havia mais nada a fazer na cidade, muito menos no cubículo onde moro. Não tinha praia ou piscina, já cinema, teatro e shows de música, apenas em datas especiais raríssimas. Me restava o esmorecimento sobre meus lençóis manchados, o desânimo não permitiu-me dobrar a pilha de roupas na cama então só as empurrei e encontrei um canto para mim.
Fiquei estirado com o rosto fundo no travesseiro até me faltar o ar, queria poder ficar assim pra sempre mas me rendi a virar o rosto. Não consegui agir como costume, senti uma apatia jovial que não sentia a muito tempo, uma angústia no peito e a cabeça pesada, a dificuldade de abrir os olhos. Nostalgia.
Lembro-me bem do que sonhei naquela noite, pilhas e pilhas de papéis me afogavam, tinham escritas gigantes e alguns só possuíam algumas letras.Tudo estava claro demais e tateando as quatro paredes super próximas de mim, não encontrei nenhum interruptor, o ar não me faltou o suficiente para me desmaiar, vinha e voltava com restrição de maneira cruel, me mantendo em sinistra aflição.
Conseguia sentir minha pele encharcada mas nenhuma fonte de água, era um tipo gelado de suor e, a cada gota que escorria, era um arrepio na espinha. A luz branca me lembrava a de um dentista, daquelas que ficam apontadas no rosto e fazem esquentar.
Quando acordei, a falta de ar persistiu por algum tempo e para minha maior infelicidade; os jornais anunciaram que se inicia o mês mais quente do ano.
CAPÍTULO 2
Eram quase 8 da manhã quando batidas estrondosas ecoaram pelo apartamento de dois quartos, as cortinas que os separam não chegam nem perto de ser o suficiente para parar o som irritante.
“Seu Marotto? Senhor tá aí, não tá?” Soou atrás da porta de entrada, a voz falhada e juvenil entregou o indivíduo, era Bruninho, filho mais novo da síndica Regina.
As batidas continuaram e o garoto não se calou;
“Eu sei que o senhor tá em casa”
mais duas batidas
“Mamãe já tá putassa, abre aí pra gente conversar”
Eu sei do que se trata, sei que a conversa com ele seria muito mais tranquila que com Regina, que é um tanto impassível, mesmo assim, cobri o rosto com travesseiros.
Mais quatro batidas.
“Se o senhor não sair vai ser pior, não quero que você vá embora do prédio!” Insistiu mais um pouco. No fundo eu queria vê-lo e colocar o papo em dia, mas não era pra isso que ele estava aqui, era sobre o aluguel atrasado.
Por um segundo cogitei em respondê-lo e me explicar como tenho feito nos últimos meses, suplicar piedade e implorar por um prazo mais longo mas de que adiantaria? Sem um salário estável não posso prometer-lo nada além de alguns centavos, tenho sobrevivido de água da torneira e comida barata de bar, tudo isso com o dinheiro de minha recisão. Desde então tenho feito alguns bicos, consigo sustentar meus vícios e nada mais, nada menos, pintei faixas de pedestres, fui substituto de zelador numa escola, na prefeitura e num asilo, tentei aplicar para segurança, vendedor e secretário. Só um deles mandou respostas e foi para avisar que eu não teria a vaga por falta de pró-atividade física.
As batidas cessaram e uma última loquela;
“Vou deixar um documento pro senhor, me dá notícia!” e os passos entregaram sua saída, eu não soube o que fazer.
