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Taylor Ariel Barbosa

Taylor Ariel Barbosa

Chapecó/SC, 16 anos

Com certeza a ideia de trocar minhas cortinas velhas e densas por umas caseiras feitas de miçangas transparentes, visto que agora, eram incapazes de impedir a visita persistente do sol

 Com certeza a ideia de trocar minhas cortinas velhas e densas por umas caseiras feitas de miçangas transparentes, visto que agora, eram incapazes de impedir a visita persistente do sol.

 Um fedor horrível, provavelmente das cascas de banana que estavam na mesa, foi o estopim para me convencer de cobrir o rosto com o travesseiro e soltar um gemido preguiçoso, já sem paciência. Me esgueirei por debaixo dos grossos cobertores de crochê até conseguir sair do outro lado da cama, aliviando de imediato o calor, fazendo cada gota de suor agoniar em contato com os raios de sol e se dissipando assim que o ventilador alcançou-me, fazendo uma volta completa em torno de si mesmo.

 O sono encarnado no corpo desceu para os joelhos após me alongar um pouco, atrasando meus passos. A porta entreaberta revelava atrás de si uma lata de lixo que gritava faminta por mais papel amassado e cascas de banana e eu, com peso na consciência a alimentei com o que restava na mesa. “Que dó” pensei “eu só como banana, te fazendo ter uma dieta terrível né amiguinha?” disse para a lixeira em voz alta.


Na cozinha, podia ouvir meu colega de “quarto” (casa) gritando música eletrônica “mágica”, o que era irritante. Mais ainda que aquele “Beat unicornisticamente glittero-magistico” que ele vivia mencionando em qualquer conversa. Sinto em dizer mas acho que essas porcarias ja corroeram o cérebro dele, não tenho tanta propriedade em dizer pois minhas áreas de estudos são outras…

Por sorte a caixa de energia da casa ficava no corredor do meu quarto, do ladinho da minha porta. Mandei todos os botões se desligarem e esperei alguns segundos, como previ, assim que as luzes se apagaram e a música parou, os resmungos de Corny começaram e ele veio atrás de mim.

-Porra ‘main’!! Que desnecessário, da próxima vez que fizer isso eu começo a mijar no teu leite de banana, seu bosta!- Reclamou no caminho que percorreu até a caixa para ligar os botões ele mesmo, depois me encarou mortalmente, seu chifre quase batendo na minha testa.

 Ele sempre dizia isso e eu sempre morro de medo de nunca perceber quando ele o fizer, é uma especiaria rara e muito saudável, quebraria meu coração o desperdício.

Ignorei completamente o comportamento infantil por costume e segui reto pelo corredor até chegar numa porta cheia de trancas que eu obviamente tinha a chave. Tinha, não fazia ideia de onde as havia colocado. Corny seguia ouvindo música alta, afinal nunca parava. Voltando para o quarto revirei as roupas jogadas em busca do molho de chaves (Também para achar algo limpo para vestir) mas falhei. Fiz apenas levantar uma poeira agora visível por conta dos raios d e sol que eram refletidos e transformados em coloridos ao passarem  por dentro das miçangas, era lindo e me tranquilizou por alguns momentos, antes de me encher de espirros. Fugi do quarto para procurar em outro lugar.  

Corny sairia de casa em alguns minutos e eu por um momento me perguntei se seria por isso tanta festividade, mas quem tem energia pra isso todos os dias? eu ficaria atordoado. Enquanto esperava, misturei em um pote uma massa de panqueca de banana com aveia e coloquei a frigideira esquentar.

“É só não bagunçar nada que ele nem vai perceber que procurei no quarto dele” disse para mim mesmo pegando o liquidificador e colocando meu leite de banana com gelo dentro. De forma rápida joguei um pouco de massa na frigideira quente e alternei entre cuidar para não queimá-las e bater todo o gelo com o leite, irônico como não me orgulhava tanto assim. Fazer a mesma coisa todos os dias tinha como resultado fazê-la de forma impecável, ou pelo menos um pouco melhor que o “comum”.

 Depois de tudo pronto, comi em pé na frente da bancada. Aquele gosto enojante que a comida passa a ter após pelo menos uns dias a repetindo, os pedaços desciam triangularmente, rasgando minha garganta. Já a bebida gelada de banana envenena os rasgos e alivia demais minha sede.

 Corny foi até a cozinha e lançou na pequena mesa de jantar o rolo de jornais diário, ele ficou sabendo que eu completava as cruzadinhas e desde então, começou a recolhê-los da porta toda manhã. Me irritava essa sua forma de querer ser amigável, mesmo com seu vocabulário absurdo e ideias meio alienadas. Eu não cairia nessas inconsistências

Sem nem se despedir, perdido em seus fones de ouvido, bateu a porta da frente. 

Ele nem desligou a música alta que ouvia antes…

Deixei a louça na pia e fui até o seu quarto para vasculhar em busca das chaves, mas também estava trancado, era óbvio, quem sai de casa e deixa o quarto destrancado quando tem um estranho morando com você? (eu mesmo faço isso, não tenho tanto apego assim às coisas que estão no meu quarto).

 Como duas lâmpadas meus olhos se iluminaram e praticamente dobraram de tamanho, quase cai correndo até aquela porta toda trancada de antes.

 “Eu confio em minhas habilidades” Defini para mim mesmo quando me vi de frente a primeira fechadura, do casaco, tirei uma agulha de crochê pequenina e colorida e um grampo de cabelo. 

 Acho que perdi no mínimo meia hora com esperança de abrir alguma tranca daquela forma estúpida. “Vai ser do jeito tradicional então” Proferi em voz alta, me virando e preparando para dar uma espécie de coice na porta. Repeti o movimento umas duas ou três vezes até as trancas estourarem num estrondo alto. A sola dos meus pés doíam tanto quanto meus joelhos, realmente preciso me exercitar mais.

 A porta escancarada revela uma escadaria que desce até o porão, não era bem iluminada mas pelo menos não tinha nenhuma aranha. Desci e aos poucos pude contemplar minha obra de arte, meu laboratório. Completamente completo. Ali tinha de tudo que eu precisava para meus estudos científicos sobre vulcões e magma.

 Dei um último bocejo enquanto colocava meu traje “ultrasonicopromagma- zicovulcanicomicroespecialiscista” só para descobrir subitamente que as máquinas tinham luzes azuis ligadas, ou seja, as amostras de magma haviam acabado. 

-Merda! Bem hoje que eu ia terminar meus estudos secretos que mudariam o rumo científico!!- Exclamei furioso, foi quase impossível conter tanto azar.

 Meu cérebro ficou em branco por alguns segundos,tentando achar na escuridão um foco certo que me desse alguma indicação do que fazer. “Terei que ir coletar, elas ainda não voltaram pro estoque da amazon e nem pro do aliexpress” conclui após checar os dois sites. “Que merda, que merda” repeti baixinho enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro como um tique.

Quando menos imaginei, estava dentro do carrinho de golfe verde água que meu colega havia comprado na semana passada, por sorte hoje resolveu ir de bicicleta aonde quer que estivesse indo. Tive um calafrio terrível só de me imaginar chegando atrasado e Corny perceber que eu “roubei” o carro dele, não é roubo de verdade, tenho quase certeza.

Parti pela floresta mágica seguro de mim mesmo e, eventualmente cheguei no deserto, virei o volante e entrei numa trilha de areia. Demorei cerca de 10 minutos para chegar no primeiro vulcão, a velocidade do carrinho nao ultrapassa 35 km por hora.

-Ainda bem que o tanque tá’ cheio!- Ri sozinho.

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