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LIS BRAZ

LIS BRAZ

(A sentence about her)

08/02/2025

O corpo não condiz com a eterna juventude. Hoje acordo tarde, depois da comilança e bebedeira da noite anterior, levanto-me com o sol já deitando. O espelho, pequeno círculo no banheiro, me reflete alguém que não sou eu. A visão é do tamanho de uma segunda feira cansada. Aprendi a cegar aquilo que não entendo. 

O chão, no caos corriqueiro que acostumamos a vida, grita por atenção. Busco a calça adolescente dentre aquelas perdidas. Apesar da má impressão no reflexo, as roupas do armário reconhecem o erro e continuam perfeitas delineadoras das curvas joviais do corpo. 

Meu homem, ainda deitado, ainda embriagado, não mais criança, acompanha os olhos no jeans da calça justa que sobe as pernas com custo, depois no busto ainda nu, remetendo o querer da noite passada. Preguiçosamente, mira o olhar de desejo no mais fundo das minhas pupilas pretas. fito ele com a visão apaixonada, nova como eu. Seu rosto, o único membro visível por fora dos cobertores, com estranhas marcas, os fios nunca mais retornados da cabeça e o semblante empiricamente cansado representam a feição da jovial paixão. Nos encontramos naquela festa bagunçada e nunca mais deixamos de nos achar. 

O dizer, nesse momento, se torna desnecessário. Sigo com os peitos à mostra até encontrar a regata vermelha e o sutiã de oncinha. Sinto, na procura, o queimar em minhas costas, obrigando meu descortinamento à vista constante do corpo insistentemente deitado. Junto-me à cama meio vestida meio nua, iluminada pelas luzes que se revezam em faixas

alaranjadas na iluminação do lençol carmim, este que sempre serviu de apoio para as vidas pesadas que bem carrega. 

Remanesce no quarto o cheiro de sexo, o gosto do suor e o som das risadas como se o encarar contínuo do presente momento não fosse suficiente. Nos dias passados vivemos, os dois, como nós, demasiados agoras. Demasiados futuros que outrora eram passados adormecidos. Descanso o semblante em seu, percebo mais uma vez o escurecer do dia e sinto o belisco amoroso na cintura que, dubiamente, faz-me levantar num pulo. O amado acompanha meus passos.

A aparência antes escondida, agora se escancara. Os pelos em seu peitoral se grisalham, a barriga se aumenta, as pernas se afinam..

Aprendi a cegar aquilo que não entendo, entretanto. Selo a penumbra com um caloroso beijo, entretanto. 

Ansiosos, deixamos o quarto que outrora nos guardava. O relógio de ponteiros na parede, desobediente, se mantinha parado ao decorrer da vida. Chequei a hora no celular, então, mais uma vez, e o conhecimento do momento me fazia murmurar qualquer coisa sobre nosso atraso. No fim, sabíamos que havíamos escolhido, arbitrariamente, correr atrás da ânsia desse instante. A lentidão passada, bem conhecida, afinal interferiria no futuro. 

Vestido com a mesma roupa da noite passada, ele se empompava no reflexo do microondas, sem se importar com o olhar de aflição que o atingia. Buscava a bolsa roxa pelos cantos da casa e reforçava a maquiagem que ainda não saíra do rosto. Rapidamente punha no olho a cor azul; na boca, a rosa; nas bochechas, o vermelho. Me sentia colorida, mais uma vez. 

Direcionava ao homem gritos de atraso, insistentemente olhando para o relógio ainda parado. Apenas pelo costumeiro que nunca sai. Não era ignorada, apesar da não resposta.

Ouvia o barulho das chaves e da fechadura funcionando. Corri para a porta e o amor me aguardava com o chaveiro de pompom vermelho bem seguro na mão direita. Mais uma vez ele me fitava com desejo e descansava o seu olhar em meu olhar, depois da passada lenta e sôfrega que começava na rasteirinha preta. Sentia o calor retroativo das pupilas em cada curva mal acidentada do corpo. Parada, como agente passivo, como aquela que recebe a ação, lembrava dos maiores e menores quereres que ja sofrera na longínqua genésica jovialidade. Me faziam criança, finalmente, mais uma vez.

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